







Mas o deserto pode também ser momento existencial caracteriza-do pelas adversidades, decepções, enfermidades, crises e perdas; um tempo que não gostaríamos de atra-vessar, mas que, no futuro, nos dará plena consciência de sua importância na construção de nossas vidas. Há pessoas que acreditam que este tempo de deserto pode ser altamente perigoso para sua caminhada com Deus. Elas temem que, diante das pressões externas e lutas espirituais, possam vir a desanimar ou mesmo a se decepcionar com o Senhor, aban-donando até mesmo a caminhada.
No entanto, as histórias bíbli-cas nos mostram o contrário. No deserto, servos do Senhor são lapida-das e ganham maior consciência do amor de Deus por suas vidas e de sua vocação na história. É ali que, ao invés de se perderem, foram encon-trados pelo Pai. Na verdade, existe um espaço muito mais perigoso e nocivo para a genuína espiritualidade do que o deserto. É o que podemos chamar de palácio: o lugar onde experimentamos o poder e a fartura. No palácio, temos a sensação de que tudo está sob nosso controle. No palácio, nem mesmo precisamos de Deus, pois o pão nosso de cada dia está garantido pelas nossas próprias conquistas.
Por isso mesmo, as histórias bíblicas e as biografias de homens e mulheres do passado nos revelam que, em sua grande maioria, o espaço em que pessoas mais frequentemen-te se perdem não é o deserto, mas o palácio. É quando vivem no palácio que abaixam a guarda, passam a confiar demais em si mesmas e se veem cercadas de oportunidades que não tinham antes. É no contexto do palácio que o dinheiro, o sexo e o poder se mostram mais sedutores, levando o ser humano à ruína.
Creio que somos convidados a desenvolver nossa espiritualidade ao longo de uma caminhada que envolve tempos de desertos e tempos de palácios.
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Aprender a cruzar desertos e a viver em palácios é uma tarefa árdua que requer uma vida inteira de muita oração e dependência de Deus”.
Ao longo de minha caminha-da cristã, não foram poucas as vezes em que me encontrei cercado por circunstâncias adversas. Em diversas ocasiões, carreguei dentro de mim um sentimento de que não consegui-ria sair de uma determinada situação. Se não bastassem os problemas externos que me afligiam, meu ânimo se encontrava debilitado e sentimen-tos contraditórios me deixavam ainda mais confuso. Para completar o cená-rio caótico, em alguns destes momen-tos, um outro elemento intensificava ainda mais a crise: a sensação de que Deus não estava ouvindo minhas palavras ou olhando por mim.
Apesar de ouvirmos muito pouco acerca da realidade destes momentos, ao longo da jornada de um cristão eles existem de fato. Des-crevendo sua angústia em uma des-tas fases de sua caminhada cristã, João da Cruz chega a definir tal momento como sua “noite escura da alma”. Eu, particularmente, tenho optado por nomeá-lo simplesmente como deserto. O deserto, como espa-ço geográfico, é um lugar árido e de visual caracterizado pela desolação. Sua imagem transmite a todos a idéia de ausência de vida e iminência de morte. No entanto, é interessante notar que na espiritualidade bíblica o deserto não representa um lugar de perdição e destruição. Muito pelo con-trário - nas páginas das Escrituras ele é retratado inúmeras vezes como um lugar onde pessoas são surpreen-didas pela presença de Deus e por seu cuidado gracioso para com suas vidas.
Neste sentido, o deserto pode ser visto como um lugar para onde muita gente se desloca por força das circunstâncias, como aconteceu com Davi, ou voluntariamente, a fim de buscar a presença de Deus, como aconteceu com Jesus.
Nos desertos, precisamos encontrar o caminho da confiança no caráter de Deus e da submissão aos seus caminhos, principalmente quan-do eles não se revelam como os nos-sos caminhos. Mas, nos palácios, precisamos exercitar a humildade de coração e a dependência do Senhor, reconhecendo que tudo o que temos e somos veio de suas mãos - e que as bênçãos não nos são privilégios, mas sim, responsabildade. Isso porque ambos - tantos os palácios como os desertos - segredam armadilhas pró-prias. Enquanto desertos são lugares onde a amargura e a desconfiança nos assaltam, nos palácios somos constantemente envolvidos pela ten-tação de assumirmos o controle de nossas próprias vidas.
É tendo em mente a cons-ciência de que nossa espiritualidade é construída através de desertos e palácios que podemos compreender as palavras de Paulo em Filipenses 4.10-13: Alegro-me grandemente no Senhor (…) pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece. Aprender a cruzar desertos e a viver em palácios é uma tarefa árdua que requer uma vida inteira de muita oração e dependên-cia de Deus. No entanto, é preciso concordar plenamente com o apósto-lo quando diz que tudo podemos no Senhor. Só isso pode explicar o fato de que, apesar dos desertos e palá-cios, ainda estamos firmes - e, apesar de nossos tombos e deslizes, ainda continuamos no caminho.