R ecentemente, enviei um e-mail a um nobre colega em Cabo Verde, reagindo aos seus pedi-dos de oração em relação aos aconte-cimentos no Hamas quanto à oficiali-zação de casamentos infantís. Um trecho do meu e-mail dizia: “Estamos em dias difíceis. Por todo lado do mundo recebemos e vemos notícias da proliferação do pecado. A violência tem sido institucionalizada por meio de facções religiosas, por meio de facções marginalizadas e por meio de facções governamentais. Podemos talvez entender o que está ocorrendo. O evangelho deixou de ser pregado e ensinado em sua essência simples. Como membros do Corpo de Cristo, estamos mais preocupados com o status e o dinheiro que podemos adquirir do que com a disseminação da Verdade. Com a libertação dos cativos fazemos violência dentro do próprio Arraial. Por isso que Saramago (Premio Nobel de Literatura em 98), recentemente comentou que a Bíblia "é um manual de maus costumes”. Não concordo, pois ele está longe de entender os princípios da revelação de Deus ao homem, porém concordo que, muitas vezes, somos protagonis-tas destes maus costumes também no nosso século".
   Ao refletir mais sobre a qualifi-cação dada por Saramago, "a Bíblia um manual de maus costumes", pen-sei em conduzir o leque do entendi-mento para o texto bíblico nunca como um manual (qualquer), menos ainda de "maus costumes", mas como o Manual (único), no relato da transpa-rência da relação homem sem Deus e Deus em busca do homem no Univer-so existente.
   Como não poderia deixar de ser, em nenhum momento da revela-ção bíblica Deus descreve uma utopia da história humana. Ela está marcada, em seu texto, tanto pelo mau compor-tamento e violência demonstrados nas consequências produzidas pelo peca-do do homem no confronto com o Seu Criador; como pela busca Deste na recondução do homem à Sua presen-ça pela eliminação da maldade e vio-lência por meio de Sua infinita graça e misericórdia.
 
 
 
 
 
   Sem Deus, o pecado sempre irá criar deformações psicossomáticas no homem, produzindo relacionamen-tos distorcidos no meio mortal e contra o Imortal. Seria patético a Bíblia não registrar Caim o assassino, Abiú e Anadabe os profanos, Davi o adúltero, Balaão o ganancioso, Jezabel a cruel e Ananias e Safira os mentirosos. Camuflaria o pecado, que na realidade nada mais é que a ausência do gover-no de Deus no coração humano, pura-mente para satisfazer o senso "ético e crítico" dos produtores de conheci-mentos humanos sejam eles filósofos, literários e cientistas.
   Que significado teria o Manual falar de um Salvador, já que salvação não teria sentido, exatamente por ser uma ação que livra do estado deplorá-vel e de morte eterna, se o caos não é relatado? Para que finalidade serviu a morte de Cristo na cruz? O Manual nunca teve o escopo de saciar a razão humana, pelo contrário, desafia ir além e entrar no campo da fé. Sempre apontou para os contrastes (mal e bem; trevas e luz; baixo e alto; perdi-ção e salvação, morte e vida), no intui-to de destacar o divisor produzido entre o efêmero e o eterno.
   Por isso, a metanarrativa bíbli-ca é contestada tanto no campo da fé (milagres, salvação, céu e inferno) pe-los existencialistas, como é alvo de críticas dos pós-modernistas, como as que fez Saramago, ao definir o real e vivencial (maldade, violência, etc) como meramente a decadência dos maus ensinos bíblicos. O que Sarama-go não entende é que este Manual é a junção do racional, limitado e decaído com o eterno, ilimitado e glorioso no propósito de reconstrução da história humana sem o caos. "Vi um novo céu e uma nova terra..." (Ap. 21:1) .
   A pós-modernidade visa à desconstrução. Descaracteriza e bus-ca destruir a verdade. É assim, os pensamentos dos plus-modernistas (John Hick) que faz da encarnação de Cristo uma metáfora. Criticando a constatação do mal e da violência na narrativa, também rejeita a expiação de Cristo. Abre espaço para a plurali-dade. A critica é da sua própria realidade sócio-político-religiosa expos-
 
-ta ao nu nos textos bíblicos.
   Está lá! Todos os maus costu-mes: Adultério, prostituição, mentira, engano, violência, assassinato, roubo, homossexualismo, falsos deuses, para não sair dos mais clássicos, para mostrar que a degradação do homem é real. Não existe isenção desta veracidade: "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3:23). Como também estão lá todas as bens aventuranças (Mateus 5) e os grandes homens que entende-ram que o único meio de se livrar do caos é se render a Cristo.
   Ao Manual, cabe o relato verí-dico da história e a comprovação contínua na sucessão histórica de quem é o homem sem Deus e o homem com Deus. Não é um Manual de maus costumes, mas o reflexo de nós mesmos sem Deus.
   Cabe então, não sermos pro-tagonistas do caos, mas sim antago-nistas dele.
 
hex1.jpg
hex2.jpg