U ma festa, uma conversa, qualquer coisa que se anuncie para ter lugar “em família”, pre-tende-se dispensar muita atenção aos cuidados normativos da convivência humana. O bem que nos traz a ausên-cia de espírito formalista em horas e lugares de estar “em família” é inegá-vel. Mas há nisto outro bem ainda maior.
   Gostaríamos de considerar aqui a família formada pela vida em comum de pai, mãe, filhos e outros parentes. A família de hoje.
   É que, desafortunadamente, a sociedade parece não dar conta do mal que lhe causam outras convivên-cias que, impondo-se como indispen-sáveis, fragilizam a célula básica do tecido social. Este, enfermo como se mostra, não tem força sequer para gritar a sua dor. Geme e todos pare-cem dar-lhe a mesma atenção que julgam merecer um velho inválido e rabugento.
   A família padece do mal cau-sado pela ausência de confiança entre os seus componentes. A confiança é que inspira a boa convivência. Mas no tratamento da vida em comum a famí-lia vem sendo assistida com grandes doses da aproximação que as normas impõem, sem se importar de certificar da presença do princípio chamado confiança.
   Há muitos grupos de pessoas empenhadas entre si na distribuição de  responsabilidades,  administração
de meios e repartição de benefícios, tendo a forma de família “mas negan-do a eficácia dela”, tendo o nome de família “mas negando a eficácia dela”, tendo o nome de família, mas sendo qualquer coisa que não passa de mera sociedade ou cooperativa.
   O espírito independente que o egocentrismo estimula faz que as re-gras de jogo tidas por válidas em outras esferas se transportem para o seio familiar. Vive-se junto no mesmo espaço físico e pelas mesmas forças materiais, mas separado pelo mau uso da disparidade de inclinações, gostos e vontades; faltam elementos capazes de aproveitar divergências e diferen-ças para fortalecer a vida.
   A solidariedade deve fazer seu papel mas não pretender o do amor. É bom que a solidariedade existente na família tenha resultado do amor, em vez do contrário. Mas muitas famílias vem sendo constituídas com base nesta inversão. O amor é básico na construção da família, pois faz possível viver pelo outro e não só viver com o outro.
   Viver em família pode não ser fácil mas será sempre a melhor forma de viver. Desde o princípio Deus apon-ta ao homem a forma própria desta convivência e o procedimento conse-quente com todas as formas de cresci-mento e vida. Tal procedimento come-ça por “deixar, para se unir e seu UM” (Gen. 2:24). É necessário que se chegue a ser um, pois nisto estão as condições indispensáveis ao cresci-mento de uma sociedade saudável.
   Onde a Família sabe viver em família, a sociedade pode tirar vanta-gens das divergências e diferenças.    Usufruirá do benefício do amor, da solidariedade e da confiança.