E sta é sem dúvida a festa cristã mais importante do calendário litúrgico, mas poucos dão à ela a relevância que a mesma reclama. No Brasil, particu-larmente no nordeste, dois elemen-tos se tornaram dominantes na tarefa de simbolizar a Páscoa: o chocolate e os espetáculos. Eu não quero diminuir o valor e a impor-tância de nenhum dos dois, princi-palmente do primeiro, mas obvia-mente que ambos são periféricos e nem sequer tangenciam os gran-des desafios que esta época do ano evoca.
   O chocolate não o faz, por-que é uma tradição importada da Europa, que remonta ao hábito nórdico de dar ovos decorados aos amigos neste período do ano, e acaba falando mais ao estômago que à alma. Já os espetáculos não o fazem, porque impressionam mais pela performance dos atores que naquele momento encenam um drama, que poderia ser de Shakespeare ou de um outro gran-de escritor, do que pelo conteúdo das falas e vidas envolvidas.
   Para compreender o senti-do da Páscoa, precisamos nos re-portar ao livro de Êxodo, ao instan-te mesmo em que ela foi instituída por Deus, através de Moisés (Capítulo 12).
   Primeiro, a Páscoa é uma ceia, algo que não se deve fazer sozinho, é um ato da coletividade, sobretudo da família (é uma festa para ser celebrada entre os seus).
   Em segundo lugar, ela é um marco entre o estado de escravidão e a liberdade que se anuncia próxima. Através dela nos recordamos do amargor dos dias que passamos sob os rigores da exploração, dos dissabores de uma vida sem sentido, a serviço dos interesses alheios, onde éramos vistos como máquina, nú-meros, contingente de manobra, de quando fomos feitos coisa (res).
   E em terceiro lugar,  é preciso comer de pé e vestidos para partir, como se dizendo que somos seres “de partida”. Se há um signo supremo sobre o povo de Deus é este, eles estão “de partida”.
   Mas o mais impor-tante símbolo da Páscoa é o “sangue do cordeiro” que foi aspergido sobre os umbrais das portas das casas para que o anjo da morte não toque as famílias  nelas  abrigadas. A morte do cordeiro  nos  livra  da  morte dos nossos filhos. Seu san-gue em nossas portas nos protege da visita da desgraça e da calamidade. O dia em que os cordeiros foram mortos no Egito foi o mesmo em que morreram muitos primogênitos. Filhos queridos, sacrificados para que um povo fos-se libertado, para que um coração fosse quebrantado, para que uma profecia fosse cumprida. É um preço caro demais. Fosse eu juiz de tudo, inclusive da história, e me perguntassem se gostaria que a liberdade do povo de Israel se construísse deste modo, diria que não. Preferiria que continuásse-mos buscando soluções menos gravosas, esgotássemos a diplo-macia... quem sabe mais piolhos?
   Esperamos que nesta Páscoa, tenhamos tempo para lembrar da época em que éramos escravos e vivíamos perdidos, alheios à vida da Graça em Cristo Jesus e nos recordemos que para que pudéssemos ter a paz com Deus que agora temos foi preciso que o Filho amado do Pai se entre-gasse em nosso lugar.
   Feliz Páscoa!
 
   - Martorelli Dantas
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