S ei que não preciso explicar, mas estou crescentemente apaixona-do pela vida. Amo a vida porque as cores me fascinam, os gênios me intrigam, as poetisas me seduzem, os santos me quebrantam, os justos me desafiam, os solidários me estimulam. Tudo é esmagadoramente formoso.
   Sei que corro o risco de ser redundante, mas estou crescentemen-te viciado em viver. Amo a vida porque os sabores me esfomeiam, os silêncios me atraem, os mistérios me intrigam, os horizontes me instigam. Já meio estrábico, encaro de perto o milagre da vida e fico sem reação. Tudo é avassa-ladoramente delicioso.
   Sei que posso resvalar no lugar comum, mas estou fascinado com a aventura de viver. Amo a vida porque as mulheres me encantam, os altruístas me humilham, os sábios me instruem, os artistas me animam. A fertilidade criativa é infinita. As bibliotecas, um dia, não caberão tantos livros. O Louvre precisará de anexos. Quero viver até o final do milênio para testemunhar o que ainda será inventa-do, criado e recriado. Tudo é magnifi-camente grande.
   Sei que me repito, mas estou maravilhado com o dia a dia. Amo a vida porque não espero o previsível, não aceito a manipulação dos espertos e não convivo com o domínio dos pode-rosos. Acolho o insólito e enfrento o traumático para não fugir da realidade da dor. Se evito as atrocidades é para nunca afeiçoar-me com o mal. Tudo é poderosamente desafiador.
   Sei que retorno ao mesmo te-ma, mas estou deslumbrado com as contradições da vida. Amo a vida por-que sofro com angústias que não são minhas e abrigo felicidades alheias. Eu e meus irmãos somos paradoxais, saltamos como a corça e nos entoca-mos como a lebre, rujimos como o leão e bailamos como o colibri. Celebro a
liberdade de orvalhar o papel com as lágrimas da poesia e encharcar a camisa com o suor dos meus ideais. Tudo é fantasticamente misterioso.
   Sei que posso arrefecer a força de minha escrita, mas estou colado ao ofício venturoso de viver. Amo a vida porque tento entupir o ralo por onde podem descer os poucos dias de minha vida, escapo do banal. Parei de dissimular, não pretendo ver-me con-sumido com ódios que gastam tanta atenção. Prego em tábuas as memó-rias para não deixá-las fugirem. Se me comparo com os amigos que envelhe-ceram é para dizer: Meu Deus, eles se desgastaram mais do que eu!
   Disponho-me a pagar o preço da longevidade. Não invejo o Monu-mento ao Soldado Desconhecido e nem as flores que recebeu do impera-dor. Não desejo a sorte dos Camelots: John Kennedy, Che Guevara, James Dean, Lady Diana - todos morreram cedo. Tudo é fortemente cativante.
   Sei que preciso enfatizar, mas eu preciso dizer a mim mesmo que é bom viver. Amo a vida porque engasgo com o semblante do noivo naquele instante mágico em que a porta da igreja se abre para sua noivinha vir dizer sim. Emociono-me com o café que incensa a manhã pueril. Ouço a canção da menina desafinada como de uma soprano erudita. Leio o bilhete do presidiário como um tratado filosófico.
   Acolho as razões da avó como verdades inquestionáveis. Tudo é pro-fundamente sensível.
   Sei que posso dizer mais uma vez, e em letras garrafais: Eu amo viver! Amo a vida porque perdi a pressa. Desisti das onipotências, abri mão da perfeição e comecei a perceber que Alguém me ama sem que precise provar nada para Ele. Tudo é infinita-mente gracioso.  Soli Deo Gloria.